O Portugal que Temos

01-11-2011 14:07

 

Em tempo de vacas magras isto vai piorar. Se há menos para distribuir ficarão eles com tudo. Razão pela qual, mais do que estar atento às moralmente escandalosas reformas dos políticos, devemos estar atentos às decisões que eles tomam.

 O dinheiro que perdemos agora não será pago a quem nos rouba em reformas ou mordomias do Estado. Será pago com salários milionários em grupos empresariais privados para quem vende a nossa democracia em troca de carreiras interessantes. Os nomes destas pessoas interessam. Mas interessa mais entender a promiscuidade instalada e que torna isto possível.

Os nossos políticos não são nem mais nem menos honestos do que os de outros países. Como sempre, é a ocasião que faz o "ladrão". O problema é estrutural. E ele tem a ver com uma cultura de promiscuidade entre as empresas privadas e o Estado. Que tem dois sentidos. Um Estado permeável a todas as pressões . Se lermos os contratos das Parcerias Público-Privadas  e se analisarmos os processos de privatizações  (sobretudo a de empresas que detêm monopólios naturais), percebemos como os capitalistas que compõem a nossa elite económica mantém a sua tradicional cultura, nunca quiseram menos Estado, querem é o Estado fraco, permeável a pressões e anoréctico para os cidadãos.

Não é no que os políticos recebem em reformas - medido em poucos milhares de euros - que encontramos o assalto feito ao Estado e aos seus recursos. É nas políticas que estes políticos impõem ao país. No preço que pagamos por elas. E na recompensa que os decisores recebem por desprezar de forma tão grosseira o interesse público.

Senão vejamos, Joaquim Pina Moura ganhava, em 1994, 23 mil euros por ano. Entrou no governo e os seus rendimentos mais do que duplicaram, até aqui tudo bem pois as suas responsabilidades também duplicaram. Mas foi depois de sair da política que mudou de vida, em 2006, já como presidente da IBERDROLA (depois de ter a pasta da economia, onde tomou decisões fundamentais para as empresas de energia, nomeadamente na liberalização da mesma e abertura do nosso mercado aos espanhóis), os seus rendimentos anuais eram de 700 mil euros por ano.  Em doze anos aumentaram 2956%.

Jorge Coelho recebia 41 mil euros por ano, em 1994, passados uns anos, em 2009, já recebia 710 mil euros por ano, à frente da Mota-Engil. Isto, depois de ter sido ministro do Equipamento Social. O ministério que tratava dos negócios com as construtoras.  Em 14 anos, o seu rendimento aumentou 1604%.

Não se sabe quanto recebia Dias Loureiro antes de ocupar cargos governativos. Não era, à data, obrigatória essa declaração. Mas sabe-se que estava muito longe de ser um homem abastado. Como ministro recebia, em 1994, 65 mil euros. Em 2001 já recebia 861 mil euros. Os seus rendimentos caíram depois. Já o que custou ao País, como se sabe, mede-se em muitos zeros à direita. Em sete anos, os seus rendimentos aumentaram 1225%, sendo um dos visados no processo BPN.

António Vitorino recebia, antes de entrar no governo, 36 mil euros. Como ministro, 71 mil. Depois de sair do governo, 371 mil. Rendimentos que, com altos e baixos, foi mantendo: em 2005, recebia 383 mil euros.  Em 11 anos, os seus rendimentos aumentaram 962%. Um caso de súbita competência na advocacia.

 

Aumentos desta amplitude só poderiam ser explicados por extraordinários casos de sorte ou por, como políticos, estes senhores terem revelado invulgares capacidades de gestão. Quando se repete um padrão torna-se difícil falar de sorte.

Quanto à competência, cada um fará a avaliação que entender da maioria dos ministros que tivemos. Incluindo os casos referidos. E note-se que na maioria dos casos o currículo anterior à entrada num governo não chegaria sequer para ocupar um lugar de quadro intermédio nas empresas que acabam por dirigir

Nunca devemos esquecer o caso de Joaquim Ferreira do Amaral que, depois de negociar a ruinosa parceria para a construção e exploração da ponte Vasco da Gama, sob a batuta atenta do actual presidente da república, foi dirigir a empresa concessionária, a LUSOPONTE em 15 anos aumentou os seus rendimentos anuais em 328%.

 Ainda assim um número humilde, quando comparado com alguns dos seus colegas. Há casos como os de Armando Vara ou Fernando Gomes, em que é o seu partido a colocá-los directamente nas empresas, sejam elas privadas, públicas ou com participação do Estado. Há outros em que se dedicam ao puro tráfico de influências e outros ainda que recebem a recompensa do dinheiro que fizeram o Estado perder em favor de interesses privados.

Há quem defenda que este é o preço a pagar pela democracia, pessoalmente não concordo, infelizmente o rol de situações, de onde estes exemplos foram retirados, é imenso e não fica nenhuma das forças partidárias que até agora têm dividido o poder imune.

A única forma de evitar que este flagelo continue a vilipendiar os escassos recursos do nosso país, é todos os portugueses acordarem para esta realidade e serem mais intervenientes e exigentes com aqueles que elegem.

facebok